Tecnologia do Concreto & Materiais

Ensaio de resistência à compressão: o ganho de resistência em 1, 3, 7 e 28 dias

Por Victor Augusto Honorato Borba Silva · Publicado em 2 de novembro de 2026

Romper um corpo de prova é muito mais do que colocar um cilindro na prensa e ler um número. Cada idade de rompimento — 1, 3, 7 e 28 dias — conta um capítulo diferente da mesma história: a hidratação do cimento. Sou Victor Augusto Honorato Borba Silva, engenheiro civil e bacharel em Química, e trabalho com controle de qualidade em fábrica de pré-moldados, onde rompemos corpos de prova todos os dias para decidir desforma, liberação de lote e conformidade estrutural.

Neste artigo, explico por que essas idades existem, o que acontece quimicamente em cada uma delas, como o ensaio é normatizado e como interpretar a curva de ganho de resistência sem cair nos erros mais comuns.

Por que romper em idades diferentes?

O concreto não atinge resistência de uma vez: ele hidrata progressivamente, e cada idade de ensaio entrega uma informação de decisão diferente:

  • 1 dia: idade crítica da desforma em linhas de pré-moldados. O concreto precisa de resistência mínima para suportar a retirada da fôrma e a movimentação sem danos. Também é o primeiro alerta do processo: 1 dia muito baixo indica problema de dosagem, cura ou adensamento.
  • 3 dias: primeira verificação da trajetória. Com ~40–50% da resistência de 28 dias esperada, serve para antecipar desvios antes que o lote inteiro esteja pronto.
  • 7 dias: idade clássica de acompanhamento. Com ~65–75% de f28, permite extrapolar com razoável segurança a resistência final e liberar peças para etapas intermediárias.
  • 28 dias: idade de referência normativa para o fck (resistência característica). É o critério contratual e de projeto — não porque o concreto "para" de ganhar resistência, mas porque é a idade em que a maior parte do ganho já ocorreu e os resultados são reprodutíveis.

O que muita gente não percebe: o concreto continua ganhando resistência após 28 dias — principalmente com cimentos com adições (CP III, CP IV), que podem superar 110% de f28 aos 90 dias.

A química por trás da curva

Quando a água encontra o cimento, dois silicatos dominam o jogo:

  • Alito (C3S — silicato tricálcico): hidrata rápido. Responsável pela resistência dos primeiros dias — é ele que "segura" a desforma em 1 dia.
  • Belita (C2S — silicato dicálcico): hidrata devagar, mas continua reagindo por meses e anos. Responsável pelo ganho de resistência de longo prazo.

A ambos somam-se o aluminato (C3A), que reage quase instantaneamente (controlado pelo gesso do cimento), e a ferrita (C4AF), com contribuição menor. O produto que interessa é o C-S-H (silicato de cálcio hidratado) — a "cola" que liga os agregados e dá resistência à pasta endurecida.

A consequência prática: a curva de ganho é íngreme no início e assintótica depois. Do 1º ao 7º dia ganha-se mais do que do 28º ao 90º. Por isso mesmo, um desvio pequeno na idade de 1 dia (cura fria, atraso de desforma) desloca toda a curva.

Uma referência útil é a expressão clássica de maturidade (formato ACI), válida para cimento Portland comum curado úmido a ~21 °C:

fcm(t) = fcm28 × t / (4 + 0,85·t)

em que t é a idade em dias. Ela reproduz bem a forma da curva, mas é indicativa — no controle real, quem manda são os rompimentos da sua mistura, do seu cimento, da sua cura.

Valores típicos de ganho (o que esperar em cada idade)

Valores indicativos de resistência em função de f28, para concreto curado em condições padronizadas:

IdadeCP I / CP II (clínquer alto)CP III (escória)Uso típico da informação
1 dia18–25%10–18%Desforma, movimentação
3 dias40–50%30–40%Trajetória, retrabalho precoce
7 dias65–75%55–70%Liberação intermediária, extrapolação
28 dias~100% (referência)~100%fck, aceite contratual
90 dias105–115%110–125%Vida útil, durabilidade

Leituras importantes dessa tabela:

  • Cimento com adições ganha mais devagar no início e mais no final. CP III aos 1 dia pode ter metade da resistência de um CP I — e ainda assim superá-lo meses depois. Comparar misturas de cimentos diferentes aos 7 dias é um erro clássico.
  • Cura térmica muda tudo. Em pré-moldados com câmara de vapor, o ganho de 1 "dia" equivale a vários dias de cura padrão — é o princípio do método da maturidade: resistência é função do histórico temperatura × tempo, não do tempo de calendário.

Como o ensaio é normatizado

O par normativo brasileiro para o ensaio é:

  • NBR 5738 — Moldagem e cura de corpos de prova cilíndricos de concreto: define tudo que acontece antes da prensa: molde, adensamento em camadas com soquete normalizado, identificação, cura (câmara úmida ou imersão em água saturada de cal a 23 ± 2 °C) e o transporte dos corpos.
  • NBR 5739 — Ensaio de compressão de corpos de prova cilíndricos: define o que acontece na prensa: preparação das faces (retífica ou capeamento com espessura controlada), centralização do carregamento, velocidade de carregamento contínua de 0,45 ± 0,15 MPa/s até a ruptura, e registro da carga máxima e do tipo de ruptura.

Pontos que separam um resultado confiável de um número aleatório:

  • Corpo de prova 10×20 cm é o padrão (relação altura/diâmetro = 2). Corpos 5×10 cm são admitidos com fator de correlação 1,05 sobre a resistência medida — usar sem aplicar o fator superestima o concreto.
  • Capeamento malfeito destrói o resultado. Face não plana ou não perpendicular ao eixo gera excentricidade: trincamento precoce, ruptura em cunha e resistência aparente 10–20% menor.
  • Velocidade de carregamento fora da faixa distorce o valor. Rápido demais eleva o pico aparente; lento demais permite fluência durante o ensaio.
  • Cura não padronizada invalida comparações. Corpo curado ao relento nos primeiros dias perde água da hidratação — a curva inteira cai. A comparação 1/3/7/28 só é válida se TODOS os corpos vierem da mesma betonada e da mesma cura.

Interpretação: lendo a curva como engenheiro de controle

Romper é fácil; interpretar é o que agrega valor. Na rotina de fábrica, três leituras:

1) A curva está na trajetória esperada? Compare 1, 3 e 7 dias com os percentuais esperados do seu cimento. Trajetória coerente = processo estável. 7 dias ok mas 28 dias baixo sugere problema tardio (cura, cimento, aditivo). 1 dia baixo com 28 dias recuperado sugere cura inicial fria — típico de inverno sem proteção.

2) A dispersão está sob controle? Não basta a média: acompanhe a amplitude e o desvio entre corpos gêmeos da mesma betonada. Dispersão alta entre corpos irmãos (mesma betonada, mesma cura) aponta falha de moldagem/capeamento — não de concreto. Dispersão alta entre betonadas aponta processo (umidade, pesagem).

3) O resultado atende ao critério de recebimento? A avaliação de conformidade do concreto estrutural segue a normalização de recebimento (NBR 12655), com base na média dos resultados e no desvio-padrão da produção — não em um único corpo de prova. Um rompimento isolado nunca reprova ou aprova um lote sozinho.

Erros comuns que custam caro

  • Moldar corpos com concreto do "final da betonada" (segregado) ou retrabalhado.
  • Curar corpos em local diferente do combinado e comparar como se fossem iguais.
  • Aplicar (ou esquecer) o fator 1,05 dos corpos 5×10.
  • Capeamento grosso/esférico feito às pressas.
  • Extrapolar 28 dias a partir de 3 dias sem considerar o tipo de cimento.
  • Decidir desforma pela hora do relógio em vez da resistência verificada (1 dia ou maturidade).
  • Guardar a ruptura "bonita" e descartar a feia sem registro — o ensaio é do par, não do número preferido.

Conclusão

As idades de 1, 3, 7 e 28 dias não são burocracia: são uma radiografia em quatro tempos da hidratação do cimento. O 1 dia libera a desforma, o 3 e o 7 leem a trajetória, o 28 dias consagra o fck — e a química (alito no início, belita no longo prazo, cura garantindo água à reação) explica cada ponto da curva. Ensaio bem executado segundo NBR 5738/5739 e interpretação estatística consistente transformam rompimentos em decisões: desformar hoje, liberar o lote, revisar o traço.

Na minha atuação em tecnologia do concreto e controle de qualidade em pré-moldados, é essa leitura integrada — química, norma e estatística — que uso todos os dias para garantir resultados confiáveis e reproduzíveis.


Este artigo é de autoria de Victor Augusto Honorato Borba Silva — Engenheiro Civil, Bacharel em Química, Engenheiro de Segurança do Trabalho (NR-6), com foco em tecnologia do concreto, dosagem de traços, controle de qualidade em pré-moldados e engenharia forense.

Leia também: Dosagem de Traço de Concreto — o guia que une química e engenharia · Controle de qualidade em artefatos de concreto pré-moldados